Um Lírio entre Cardos

08.12.2015


Dante Gabriel Rossetti, Ecce Ancilla Domini (1850).

Passam os dias marcados pelo cinismo. Nessa passagem, irrompe uma celebração incompreendida, mesmo entre cristãos. No séc. V, Teódoto de Ancira fez uso de uma expressão que vem do Cântico dos Cânticos para falar da ausência de mácula em Maria. Escreve ele que ela é “como um lírio entre os cardos” (2,2a). No diálogo apaixonado desse livro bíblico, no qual o desejo e o corpo participam numa sedução como conhecimento entrelaçado a dois, é dessa forma que o amado se dirige à amada. Conseguimos viver no presente este amor que não se deixa desfigurar nem vencer? Conseguimos pelo menos concebê-lo? O fundo da festa de hoje é a virtude incorruptível do amor, tal como a encontramos em Maria e depois em Jesus, tal como a lemos nas palavras do Cântico dos Cânticos: “Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa para comprar o amor, seria ainda tratado com desprezo.” (8,6-7).