Frei Bento: Coragem da Acção, Coragem do Cuidado

29.02.2020

(Como sou o mais novo, provavelmente vou ser o mais breve. Estou numa idade na qual ainda escuto mais do que falo.)

Muito boa tarde a todas as pessoas presentes, em particular ao frei Bento Domingues, mas também a D. Januário Torgal Ferreira e ao Jorge Sarabando. Quando a Associação Conquistas da Revolução me convidou para participar neste encontro com o frei Bento Domingues, aceitei com gosto e foi para mim uma oportunidade para pensar sobre os meus encontros com Frei Bento e os encontros de Frei Bento comigo e outras pessoas.

Podemos dizer que há dois tipos de encontros: os encontros marcados e os encontros fortuitos.

Os livros e as crónicas do frei Bento foram um dos elementos fundamentais na minha aproximação à Ordem Dominicana, na qual estou como leigo desde 2012. Os textos do frei Bento eram, e continuam a ser, esperados por mim todas as semanas. São uma lufada de ar fresco na sociedade portuguesa: eis um religioso para quem a religião não é uma arma de arremesso contra o mundo, mas um espaço de ligação e diálogo no mundo, um gesto de reparação e cura do mundo, uma construção fraternal — como convém a um frade —, que ergue pontes em vez de muros. Esses passaram a ser encontros marcados.

Mas há também os encontros fortuitos. E não falo apenas dos escritos que fui encontrando por acaso — entrevistas, ensaios, prefácios. Falo, sobretudo, das ocasiões em que nos cruzámos. Em 2013, celebrou-se os 40 anos do III Congresso da Oposição Democrática na Universidade de Aveiro, uma reunião de democratas que foi também uma das sementes do processo de democratização que se seguiu ao 25 de Abril. Frei Bento participou num painel que partia das reflexões sobre o III Congresso da Oposição Democrática para as enquadrar no momento político actual, muito difícil de imposições da troika e de um governo de direita com uma agressiva política anti-laboral e anti-social. Conversámos durante alguns minutos. Esta conversa podia ter acontecido numa actividade do MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, organização na qual tem participado activamente. Daí ele me ter dito nessa ocasião: “Encontramo-nos mais em eventos políticos do que em eventos religiosos.” Era verdade. Tem sido verdade. O comentário dele fez-me pensar sobre a diferença e a relação íntima entre estas duas esferas: a religiosa e a política. Alguns meses depois, aliás, o frei Bento estaria em Coimbra, acedendo a um convite meu, para comentar um filme brasileiro baseado no livro do frei Betto, Batismo de Sangue, sobre o envolvimento de um grupo de frades dominicanos de São Paulo (frei Betto, frei Tito, entre outros) que estiveram envolvidos na resistência à Ditadura Militar, tendo sido presos e torturados. Eis, portanto, uma ocasião que revelou o cruzamento entre as duas esferas.

É certo que nem ele, nem eu, defenderíamos uma política de recorte confessional. Mas outra coisa bem diferente é dizer que as acções libertadoras de cariz político e social podem ser desligadas das convicções religiosas de uma pessoa que as tem e que age em conformidade com elas.

Quando o frei Bento e o seu irmão Frei Bernardo — e o frei Marcos, já agora, outro frade dominicano que tem marcado o meu percurso, até porque foi Promotor Provincial do Laicado Dominicano em Portugal há bem pouco tempo… Repito: quando o frei Bento, o Frei Bernardo, e o frei Marcos integraram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos a partir de 1969, como democratas e antifascistas, denunciando os crimes da ditadura fascista e prestando auxílio aos seus prisioneiros, estavam a cumprir um dever cívico, democrático, mas também a assumir a sua missão de cristãos. E aqui vale a pena voltar a lembrar e a proclamar: o papel de um cristão numa sociedade profundamente injusta é arriscar que o enviem para a cruz, não ficar a observar os outros a serem crucificados como se não fosse nada com ele. A nossa fé impele-nos a fazer irmãos e a dar a vida por eles.

Neste sentido, o frei Bento recusou o silêncio cómodo de quem considerava que a opressão do fascismo era um assunto que não lhe dizia respeito, rejeitou a ideia de que fazer parte de uma comunidade religiosa num convento o retirava das coisas mundanas. Também para São Domingos a acção prática e transformadora espelha a reflexão e a fé, o que explica o empenho dos dominicanos na justiça e na paz, demonstrado por figuras como frei Bartolomeu de Las Casas, defensor dos índios e abolicionista da escravatura no séc. XV. O mínimo que se pode dizer, portanto, é que frei Bento está em boa companhia e tem sido ele próprio uma boa companhia para quem não se cansa de contribuir para que a assembleia humana seja uma lugar de efectiva igualdade e verdadeira liberdade. Tal exige, e exigiu a Jesus, como escreveu frei Bento, uma “insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana”.[1] Do tanto que aprendi de frei Bento, do tanto que podemos aprender com ele, talvez o mais importante seja esta ideia de que a coragem da acção não pode ser desligada da coragem do cuidado, da atenção ao outro, ao desesperado, ao oprimido. E de que esta coragem é contagiante como a palavra que se entranha, o sopro que nos anima, ou a luta que nos engrandece. Muito obrigado, irmão e companheiro Frei Bento Domingues.[2]

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[1] Frei Bento Domingues, OP, “Ressurreição e Insurreição”, Público, 11 Abr. 2004, https://www.publico.pt/2004/04/11/jornal/ressurreicao-e-insurreicao-186756.
[2] Intervenção lida no “Encontro com Frei Bento Domingues”, org. Associação Conquistas da Revolução. Mira Forum, Porto, 28 Fev. 2020.