Contributos da Igreja

25.03.2020

A exigência de mais contributos da Igreja Católica no combate ao COVID-19 em Portugal pode ser vista como o reconhecimento de que a Igreja e os católicos têm o dever especial de ajudar — por causa da fé que professam. Prefiro vê-la assim. É sempre preciso fazer mais. É preciso, sobretudo, não desistir de transformar as estruturas que criam a desigualdade e exclusão social, como tem defendido o Papa Francisco. Se uma exigência semelhante fosse feita com a mesma energia aos grandes grupos privados que fazem da saúde um negócio, como estão mais uma vez a fazer, teríamos melhores condições para travar este combate. Mas não sou ingénuo nem distraído. É patente que muitos dos comentários são alimentados por pura antipatia, com tudo o que isso tem de gratuito e irracional. Se a Igreja tem instituições, é antes de mais uma comunidade. Isto quer dizer que aquilo que cada católico faz de bem, individualmente ou em grupo, é de alguma forma a Igreja a fazer. Tal inclui o apoio domiciliário, a distribuição de bens alimentares, o activismo sindical, entre outras actividades fundamentais neste contexto. Depois, organizações católicas como a Cáritas Portuguesa fazem um trabalho permanente de apoio social aos mais pobres e abandonados, particularmente às crianças. A rede nacional desta organização tem respondido de norte a sul do país a esta crise pandémica que só agravou a realidade assimétrica que já existia. Muitas outras instituições e movimentos se têm mobilizado em cada diocese, tendo em conta os seus recursos. Bem sei que muitas boas notícias têm sido enterradas pelo catastrofismo, mas deixo aqui apenas algumas delas, que vão muito além dos ventiladores oferecidos pelo Santuário de Fátima. A Diocese de Viana do Castelo disponibilizou meios logísticos para os profissionais de saúde e está a fazer uma recolha para comprar ventiladores para o hospital local. A Arquidiocese de Braga, a Diocese de Aveiro, e a Diocese de Leiria cederam espaços para alojamento de médicos e enfermeiros e outras necessidades do Serviço Nacional de Saúde. A Diocese de Santarém colocou um edifício à disposição das autoridades. A Diocese de Bragança-Miranda tem organizado o auxílio a grupos de risco. O Patriarcado de Lisboa, através da Comunidade Vida e Paz, tem feito chegar donativos aos mais desprotegidos. A Associação João 13, dos dominicanos em Lisboa, tem continuado a acolher a população sem-abrigo, particularmente vulnerável neste momento. A Igreja intervém porque se recusa a fechar os olhos a uma realidade social que conhece bem demais. Mesmo que disso não se gabe. Mesmo que isso passe despercebido.