Frei Bernardo Domingues: Alegria Transbordante

23.02.2019

Não tenho imagens, mas tenho algumas palavras. O funeral do Frei Bernardo Domingues decorreu hoje à tarde na Igreja do Convento do Cristo-Rei, Porto, que também é a minha casa porque sou membro da Fraternidade Leiga de São Domingos aí sediada. Fomos muitos e muitas. Enchemos a igreja, a ponto de ser necessário encaminhar as pessoas para as galerias superiores. Tanta gente que se cruzou com ele em diversas momentos marcantes na paróquia, na escola, na universidade, na família dominicana, na vida. Foi, por isso, um tempo de revisão, de reencontro, e de olhar esperançoso para o futuro motivado pela ocasião. A homilia do irmão, Frei Bento Domingues, sob o signo da misericórdia de Deus e da humanidade, deu um tom intensamente alegre a esta “celebração de passagem” (como o próprio Frei Bernardo lhe chamou há 7 anos) que se manteve até à conclusão. Em vez de lamentarmos, agradecemos. Agradecemos uma vida incansável ao serviço do bem comum que não nos deixa descansar. Celebrámos a alegria do Evangelho, a alegria de Cristo, a alegria da vida, a alegria da vida em Deus. Alegria transbordante. No fim descobrimos o princípio, quando a beleza do “Salve Regina”, cantado ao jeito dominicano, fez ecoar a plenitude: “Ora pro nobis sancta Dei Genetrix / Ut digni efficiamur promissionibus Christi. Amen.”

Retiro de Quaresma (2019)

29.01.2019

Catholicism, Literature, and the Arts II: Legacies and Revivals

27.01.2019

Imaculada

08.12.2018

A imaculabilidade será apenas um fetiche religioso, se não for entendido como dom incondicional e combate permanente, coisa quotidiana celebrada em festa. Quer dizer que Maria era de Deus e de si. Assim se foi afirmando, sobretudo nos momentos decisivos, sem se deixar corromper nesse ser. Uma vida e uma vontade em que o divino e o humano se enlaçaram alegremente.

A Vida Consumida

14.10.2018

“Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”,[1] disse. Óscar Romero foi hoje canonizado pelo Papa Francisco. O bispo salvadorenho “deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida — como pede o Evangelho — junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos”,[2] ouviu-se em Roma. Foi morto a tiro por um dos esquadrões de morte de extrema-direita ao serviço dos latifundiários e grandes capitalistas de El Salvador quando celebrava Missa numa pequena capela em 1980. Romero permanece um exemplo radical de empenho pela justiça social que demonstra a diferença entre um simples revolucionário e um cristão revolucionário. O primeiro pode estar disposto a tirar a vida de alguém para transformar o mundo. O segundo só pode estar disposto a dar a própria vida para o mesmo fim. Assim foi Romero, aquele que proclamou no ano anterior ao seu assassinato: “Um cristão que se solidariza com a parte opressora não é um verdadeiro cristão.”[3] Crucificaram-no como a Jesus.

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[1] Óscar Romero, entrevista telefónica de José Calderón Salazar. Ver James R. Brockman, Romero: A Life (Maryknoll, NY: Orbis Books, 2005), 247-248.
[2] Papa Francisco, homilia “Santa Missa e Canonização dos Beatos: Paulo VI, Óscar Romero, Francisco Spinelli, Vicente Romano, Maria Catarina Kasper, Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus, Núncio Sulprizio”, Praça de São Pedro, 14 Out. 2018, http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2018/documents/papa-francesco_20181014_omelia-canonizzazione.html.
[3] Romero, homilia “Jesús es el verdadero Mesías: Vigésimo domingo del tiempo ordinario”, 16 Set. 1979, http://servicioskoinonia.org/romero/homilias/B/790916.htm.

Um Coração Cheio de Nomes

14.10.2018

Re-citação a partir da homília de hoje do pe. Paulo Simoes na Capela da Universidade de Coimbra: “No final do meu caminho me dirão: — E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes.” (D. Pedro Casaldáliga).

A Política da Santidade na Ordem Dominicana

21.09.2018

Informações detalhadas sobre este encontro internacional aqui.

José Augusto Mourão, Errante da Palavra

17.09.2018

O novo número da revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian inclui um artigo assinado por mim sobre José Augusto Mourão, frade dominicano, professor e poeta. O volume Obra Seleta de José Augusto Mourão: O Vento e o Fogo, A Palavra e o Sopro, O Espelho e o Eco, coordenado por José Eduardo Franco, publicado no ano passado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, serviu de pretexto para este texto que levou o título “José Augusto Mourão, Errante da Palavra”. Muito agradeço o entusiasmo e o cuidado da Ana Marques Gastão.

Igreja do Pecado e da Santidade

01.09.2018

Na recente carta sobre os abusos sexuais de menores por parte de padres e bispos da Igreja Católica entre as décadas de 1940 e 1980, o Papa Francisco fala de uma “cultura de morte” e aponta o clericalismo como uma das raízes da actual crise. Lê-se nesse documento: “É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação activa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas.”

O relatório do júri da Pensilvânia reconhece os progressos alcançados com medidas implementadas na Igreja. Mas não chega. O papel dos leigos é fundamental para que essa cultura não seja promovida, como aconteceu no processo desencadeado pela investigação do Boston Globe no início da década de 2000. A vertente mais perversa do clericalismo criou obstáculos à denúncia dos crimes, à protecção e apoio das vítimas, mantendo os abusadores a salvo da justiça porque não se queria confrontar membros da hierarquia (quando devem prestar contas do seu serviço) ou não se queria “manchar” a Igreja (quando a mancha já existia e foi alastrada). Esta é também uma crise de opacidade e abuso de poder. A Igreja não existe por si e para si, mas por causa do e para o Evangelho. Protegê-la da verdade é uma mentira sem futuro.

Podemos discutir se o celibato deve ou não ser obrigatório para padres e bispos. Considero que devia voltar a ser uma escolha individual. Mas associar essa obrigatoriedade à pedofilia é absurdo por dois motivos: arreda essa perversão do campo da saúde mental e escamoteia o facto de a maior parte dos casos de pedofilia acontecerem no espaço familiar sem que esses abusadores sejam celibatários. O que é certamente necessário é apertar e aperfeiçoar o escrutínio de quem pretende entrar para o seminário.

É preciso saber o que nos move, no mais profundo de nós mesmos. Os séculos estão povoados de escândalos e crises na Igreja. Cremos na Igreja santa, mas ela não é santa por causa da santidade dos seus ministros ordenados ou de outros elementos da Igreja. Ela é santa por causa de Cristo. É Cristo que a santifica. Não fazemos parte da Igreja por causa desta ou daquela pessoa, deste ou daquele membro, mesmo do Papa, bispo de Roma, primeiro entre pares. Não a abandonamos pela mesma razão. Estamos na Igreja porque estamos unidos em Cristo — e é com essa força que superaremos esta crise para nos mantermos fiéis àquilo que nos faz comunidade eclesial.

Labirintos da Vida

26.08.2018

O pão, o vinho, labirintos da vida.
Corpo de Deus, milagre do nosso corpo, Páscoa de Deus nossa Páscoa!

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO, OP, “O Pão e o Vinho”