Uma Nova Criação

08.04.2020

O fr. José Nunes, prior provincial da Ordem Dominicana em Portugal, enviou-nos uma mensagem a desejar uma santa e feliz Páscoa. A passagem que a acompanha vem da 2.ª Carta de São Paulo aos Coríntios e contém este verso: “O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.” (5,17b). É tão fácil esquecermos isto e, assim, perdermos contacto com o essencial. A Páscoa marca a reconciliação entre nós e Deus por meio de Cristo, não com o sentido do restabelecimento de uma ordem antiga, mas com o significado de uma nova criação.

Dominican Chants: “Sub Tuum”

03.04.2020

Dominican Chants: “O Lumen Ecclesiae”

02.04.2020

Camarada Deus

02.04.2020

Hoje, uma amiga do coração e companheira de luta sindical disse-me esta coisa maravilhosa: “Eu sei que Deus é nosso camarada.” Pois eu também. E só assim faz sentido.

Dominican Chants: “Salve Regina”

01.04.2020

Contributos da Igreja

25.03.2020

A exigência de mais contributos da Igreja Católica no combate ao COVID-19 em Portugal pode ser vista como o reconhecimento de que a Igreja e os católicos têm o dever especial de ajudar — por causa da fé que professam. Prefiro vê-la assim. É sempre preciso fazer mais. É preciso, sobretudo, não desistir de transformar as estruturas que criam a desigualdade e exclusão social, como tem defendido o Papa Francisco. Se uma exigência semelhante fosse feita com a mesma energia aos grandes grupos privados que fazem da saúde um negócio, como estão mais uma vez a fazer, teríamos melhores condições para travar este combate. Mas não sou ingénuo nem distraído. É patente que muitos dos comentários são alimentados por pura antipatia, com tudo o que isso tem de gratuito e irracional. Se a Igreja tem instituições, é antes de mais uma comunidade. Isto quer dizer que aquilo que cada católico faz de bem, individualmente ou em grupo, é de alguma forma a Igreja a fazer. Tal inclui o apoio domiciliário, a distribuição de bens alimentares, o activismo sindical, entre outras actividades fundamentais neste contexto. Depois, organizações católicas como a Cáritas Portuguesa fazem um trabalho permanente de apoio social aos mais pobres e abandonados, particularmente às crianças. A rede nacional desta organização tem respondido de norte a sul do país a esta crise pandémica que só agravou a realidade assimétrica que já existia. Muitas outras instituições e movimentos se têm mobilizado em cada diocese, tendo em conta os seus recursos. Bem sei que muitas boas notícias têm sido enterradas pelo catastrofismo, mas deixo aqui apenas algumas delas, que vão muito além dos ventiladores oferecidos pelo Santuário de Fátima. A Diocese de Viana do Castelo disponibilizou meios logísticos para os profissionais de saúde e está a fazer uma recolha para comprar ventiladores para o hospital local. A Arquidiocese de Braga, a Diocese de Aveiro, e a Diocese de Leiria cederam espaços para alojamento de médicos e enfermeiros e outras necessidades do Serviço Nacional de Saúde. A Diocese de Santarém colocou um edifício à disposição das autoridades. A Diocese de Bragança-Miranda tem organizado o auxílio a grupos de risco. O Patriarcado de Lisboa, através da Comunidade Vida e Paz, tem feito chegar donativos aos mais desprotegidos. A Associação João 13, dos dominicanos em Lisboa, tem continuado a acolher a população sem-abrigo, particularmente vulnerável neste momento. A Igreja intervém porque se recusa a fechar os olhos a uma realidade social que conhece bem demais. Mesmo que disso não se gabe. Mesmo que isso passe despercebido.

O Inesperado da Quaresma

22.03.2020

A Quaresma, já se sabe, deve ser um tempo em que nos privamos do acessório e nos arrependemos do destrutivo. Não se trata de um castigo auto-imposto, mas de uma oportunidade de conversão. O isolamento em que vivemos neste momento foi exigido pela necessidade. Não é, em princípio, um exercício quaresmal. Mas pode alterar o modo como entendemos este tempo. Porque é uma tentação vivê-lo como se concretizássemos um plano rigorosamente traçado, em que nos abstemos disto ou daquilo, em que percorremos o calendário litúrgico, cumprindo uma obrigação sem convicção nem vitalidade. Ora esta situação coloca-nos perante um traço essencial da Quaresma: o inesperado. Este caminho percorrido até à Páscoa, miniatura de um percurso que só cabe na vida inteira, não pode ser previsível se for verdadeiramente transformador. Saiba o nosso desejo de passar da escravidão à liberdade, do sofrimento à alegria, da cegueira à visão, da morte à vida, na companhia de Cristo, encontrar um rumo por entre as circunstâncias que nos escapam.

Felizes Companhias

10.03.2020

Ainda o Retiro Quaresmal das Fraternidades Leigas de São Domingos deste último fim de semana e a equipa de pregação. Eu, entre o fr. Rui Lopes do Convento de Nossa Senhora do Rosário em Fátima e a ir. Liliana Zeferino da Casa de Santa Joana Princesa em Aveiro. Felizes companhias.

A Pregação de Hoje

08.03.2020

A minha pregação quaresmal de hoje, na Casa dos Capuchinhos em Fátima, cobriu aspectos da fé cristã no diálogo entre religiões e crentes e não crentes, tendo o bem comum como horizonte. Deu para falar do Islão, do dia internacional da mulher, do activismo sindical unitário na CGTP-IN, e da necessidade de abandonarmos as estruturas de desigualdade e exclusão social que negam e destroem a fraternidade humana. É tempo de conversão. É tempo de transformação.

Foto do Luís Santos, OP, irmão dominicano, a quem agradeço por tudo, não apenas pelo registo. Abraço fraterno.

Frei Bento: Coragem da Acção, Coragem do Cuidado

29.02.2020

(Como sou o mais novo, provavelmente vou ser o mais breve. Estou numa idade na qual ainda escuto mais do que falo.)

Muito boa tarde a todas as pessoas presentes, em particular ao frei Bento Domingues, mas também a D. Januário Torgal Ferreira e ao Jorge Sarabando. Quando a Associação Conquistas da Revolução me convidou para participar neste encontro com o frei Bento Domingues, aceitei com gosto e foi para mim uma oportunidade para pensar sobre os meus encontros com Frei Bento e os encontros de Frei Bento comigo e outras pessoas.

Podemos dizer que há dois tipos de encontros: os encontros marcados e os encontros fortuitos.

Os livros e as crónicas do frei Bento foram um dos elementos fundamentais na minha aproximação à Ordem Dominicana, na qual estou como leigo desde 2012. Os textos do frei Bento eram, e continuam a ser, esperados por mim todas as semanas. São uma lufada de ar fresco na sociedade portuguesa: eis um religioso para quem a religião não é uma arma de arremesso contra o mundo, mas um espaço de ligação e diálogo no mundo, um gesto de reparação e cura do mundo, uma construção fraternal — como convém a um frade —, que ergue pontes em vez de muros. Esses passaram a ser encontros marcados.

Mas há também os encontros fortuitos. E não falo apenas dos escritos que fui encontrando por acaso — entrevistas, ensaios, prefácios. Falo, sobretudo, das ocasiões em que nos cruzámos. Em 2013, celebrou-se os 40 anos do III Congresso da Oposição Democrática na Universidade de Aveiro, uma reunião de democratas que foi também uma das sementes do processo de democratização que se seguiu ao 25 de Abril. Frei Bento participou num painel que partia das reflexões sobre o III Congresso da Oposição Democrática para as enquadrar no momento político actual, muito difícil de imposições da troika e de um governo de direita com uma agressiva política anti-laboral e anti-social. Conversámos durante alguns minutos. Esta conversa podia ter acontecido numa actividade do MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, organização na qual tem participado activamente. Daí ele me ter dito nessa ocasião: “Encontramo-nos mais em eventos políticos do que em eventos religiosos.” Era verdade. Tem sido verdade. O comentário dele fez-me pensar sobre a diferença e a relação íntima entre estas duas esferas: a religiosa e a política. Alguns meses depois, aliás, o frei Bento estaria em Coimbra, acedendo a um convite meu, para comentar um filme brasileiro baseado no livro do frei Betto, Batismo de Sangue, sobre o envolvimento de um grupo de frades dominicanos de São Paulo (frei Betto, frei Tito, entre outros) que estiveram envolvidos na resistência à Ditadura Militar, tendo sido presos e torturados. Eis, portanto, uma ocasião que revelou o cruzamento entre as duas esferas.

É certo que nem ele, nem eu, defenderíamos uma política de recorte confessional. Mas outra coisa bem diferente é dizer que as acções libertadoras de cariz político e social podem ser desligadas das convicções religiosas de uma pessoa que as tem e que age em conformidade com elas.

Quando o frei Bento e o seu irmão Frei Bernardo — e o frei Marcos, já agora, outro frade dominicano que tem marcado o meu percurso, até porque foi Promotor Provincial do Laicado Dominicano em Portugal há bem pouco tempo… Repito: quando o frei Bento, o Frei Bernardo, e o frei Marcos integraram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos a partir de 1969, como democratas e antifascistas, denunciando os crimes da ditadura fascista e prestando auxílio aos seus prisioneiros, estavam a cumprir um dever cívico, democrático, mas também a assumir a sua missão de cristãos. E aqui vale a pena voltar a lembrar e a proclamar: o papel de um cristão numa sociedade profundamente injusta é arriscar que o enviem para a cruz, não ficar a observar os outros a serem crucificados como se não fosse nada com ele. A nossa fé impele-nos a fazer irmãos e a dar a vida por eles.

Neste sentido, o frei Bento recusou o silêncio cómodo de quem considerava que a opressão do fascismo era um assunto que não lhe dizia respeito, rejeitou a ideia de que fazer parte de uma comunidade religiosa num convento o retirava das coisas mundanas. Também para São Domingos a acção prática e transformadora espelha a reflexão e a fé, o que explica o empenho dos dominicanos na justiça e na paz, demonstrado por figuras como frei Bartolomeu de Las Casas, defensor dos índios e abolicionista da escravatura no séc. XV. O mínimo que se pode dizer, portanto, é que frei Bento está em boa companhia e tem sido ele próprio uma boa companhia para quem não se cansa de contribuir para que a assembleia humana seja uma lugar de efectiva igualdade e verdadeira liberdade. Tal exige, e exigiu a Jesus, como escreveu frei Bento, uma “insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana”.[1] Do tanto que aprendi de frei Bento, do tanto que podemos aprender com ele, talvez o mais importante seja esta ideia de que a coragem da acção não pode ser desligada da coragem do cuidado, da atenção ao outro, ao desesperado, ao oprimido. E de que esta coragem é contagiante como a palavra que se entranha, o sopro que nos anima, ou a luta que nos engrandece. Muito obrigado, irmão e companheiro Frei Bento Domingues.[2]

_____________________

[1] Frei Bento Domingues, OP, “Ressurreição e Insurreição”, Público, 11 Abr. 2004, https://www.publico.pt/2004/04/11/jornal/ressurreicao-e-insurreicao-186756.
[2] Intervenção lida no “Encontro com Frei Bento Domingues”, org. Associação Conquistas da Revolução. Mira Forum, Porto, 28 Fev. 2020.