Procurar as Raízes Firmes

26.04.2020


Uma Vida Escondida.

Há um momento em Uma Vida Escondida (A Hidden Life, 2019), realizado por Terrence Malick, que pode parecer desligado daquele que podemos pensar que é o drama principal: a recusa de Franz Jägerstätter, um agricultor e católico devoto, em fazer o juramento de lealdade a Hitler e combater ao lado dos nazis e a sua condenação à morte. Surge no encadeamento das imagens dos frescos de uma igreja. Vamos vendo o pintor Ohlendorf a trabalhar. E depois ouvimo-lo dizer isto:

O que fazemos é apenas criar... comiseração. Criamos... Criamos admiradores. Não criamos seguidores. A vida de Cristo é uma exigência. Não queremos ser lembrados disso. Portanto, não precisamos de ver o que acontece com a verdade. Está a chegar um momento mais sombrio... quando os homens serão mais espertos. Não lutarão contra a verdade, vão apenas ignorá-la. Eu pinto o Cristo confortável deles, com uma auréola sobre a sua cabeça. Como posso mostrar o que não vivi?

Pois bem, o que Franz vai viver é precisamente o trajecto de um seguidor de Cristo. Isto é, alguém que dá a vida pelo próximo, que torna a vida abundante em vez de escassa, que se coloca ao serviço empenhado dos necessitados deste mundo. Não faltarão agressões, injúrias, e incompreensões. Mas como diz o pai da esposa de Franz, Fani, no filme: é preferível sofrer uma injustiça do que cometê-la. O drama de Franz é o da convicção de uma vida e, por isso, não se circunscreve à sua prisão e julgamento. Na verdade, é o drama de cada ser humano, que na sua finitude, mais tarde ou mais cedo, é levado a procurar as suas raízes firmes, aquelas às quais não pode ser arrancado. Para isso é preciso aceitar que o percurso de uma vivência fiel da fé cristã não é um triste consolo, mas um alegre desassossego.