03.06.2013É próprio do moralismo destilar maldições sobre as mais autênticas alegrias humanas. Instalou-se, há muitos séculos, em certas correntes do cristianismo e reaparece, periodicamente, como se fosse a sua versão mais genuína pelo seu “desprezo do mundo”. É, na verdade, uma importação estranha à poética pregação de Cristo que respira, em cada gesto e em cada parábola, o gosto da plenitude da vida (Jo 20,30-31).
A evasão gnóstica foi denunciada por S. João ao falar de Cristo como Aquele “que ouvimos, vimos com os nossos olhos e nossas mãos apalparam da Palavra da vida [...] E isto vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo 1,1-4). A pregação e a intervenção da Igreja só valem na medida em que forem Evangelho, isto é, revelação de que, da parte de Deus, todos somos amados, mas com um encargo: “amai-vos uns aos outros” (Jo 15,12-17).
Dir-se-á que qualquer um, em dia sim, poderia escrever algo parecido. Esqueci, nas transcrições referidas, uma frase que perturba essa veleidade: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos”. Não fica por aqui: “sois meus amigos se esta for a vossa prática”. Se os bons sentimentos não chegam para a boa literatura, também não são as boas intenções que nos salvam.