Oração na Festa da Anunciação

27.12.2012

Republico aqui o excerto da “Oração 18” (25 Mar. 1379) de Catarina de Sena, OP que traduzi a partir do trabalho de Suzanne Noffke, OP para o último número do Laicado Dominicano:

Tu, ó Maria
foste feita um livro
no qual a nossa regra é escrita hoje.
Em ti hoje
está escrita a eterna sabedoria do Pai.
Em ti hoje
a nossa força e liberdade humanas são reveladas.
Digo que a nossa dignidade humana é revelada
porque se eu olhar para ti, Maria,
vejo que a mão do Espírito Santo
escreveu a Trindade em ti
ao formar dentro de ti
o Verbo encarnado, o Filho unigénito de Deus.
Ele escreveu para nós a sabedoria do Pai,
que este Verbo é.
Ele escreveu poder para nós,
porque ele era poderoso o suficiente
para realizar este grande mistério.
E ele escreveu para nós
a sua própria — a do Espírito Santo — misericórdia,
porque apenas pela graça divina e misericórdia
foi este mistério tão grande
ordenado e realizado.

Christi Natalis

25.12.2012

A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.

Jo 1,18

Poemas de Advento (4)

23.12.2012

Na fidelidade sem quebras de Maria,
no seu amor humilde e inesgotável de fonte que escorre,
na sua fé serena mas ardente de labareda que se alteia,
na sua vida que foi como um barco confiado à vontade do mar,
há um apelo para nós.

Às vezes, demasiadas vezes,
a vida assemelha-se a uma repartição cinzenta,
onde os horários se cumprem sem empenho.
Estamos, mas sem compromisso íntimo.
Falamos e fazemos,
mas sentindo o nosso interesse noutro lado.
Vivemos, claro, mas com o coração distante.

Como é necessário tornar realmente úteis
os dias úteis!

Úteis não apenas por imposição do calendário.
Úteis, porque vividos com generosidade e sentido.
Úteis, porque não os atropelamos
na voragem das solicitações,
na dispersão das coisas,
mas sabemos (ou melhor, ousamos) fazer deles
lugar de criação e descoberta, tempo de labor e de escuta,
modo de acção e de contemplação.

É preciso acolher o “inútil”
se quisermos chegar ao verdadeiramente útil.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, “Apresentação”

Poemas de Advento (3)

17.12.2012

No tecto abobadado, Deus
pensa:
fiz deles a minha alegria,
e tudo o mais que eu criei
fiz para os abençoar.
Mas olha o que eles fazem!
Eu conheço o seu coração
e argumentos:

“Descendemos de
Caim. O mal não é novo,
então, o que importa agora
se bombardearmos a enfermaria,
e o poço aonde os amedrontados
e os precipitados devem
vir buscar água?”

Deus criou Maria pelo pensar.
Suspensa no apogeu
da cúpula de ouro,
ela enrola uma vagem castanha,
e nela a mente
de Cristo, envolta em sangue,
aloja-se e começa a crescer.

JANE KENYON, “Mosaico da Natividade: Sérvia, Inverno de 1993”
(trad. Sérgio Dias Branco)

As Exigências do Evangelho

14.12.2012

Apresento hoje uma comunicação no seminário Religião: Diálogo, Política, Preconceito, organizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Chama-se “As Exigências do Evangelho: Gustavo Gutiérrez e a Dimensão Política da Teologia”. É uma discussão em torno da teologia da libertação, principalmente a partir da obra do seu inventor, o peruano Gustavo Gutiérrez. Pertence ao primeiro painel da tarde que começa às 14:30.

Deixo uma citação de Gutiérrez, traduzida por mim, do livro The Power of the Poor in History (Eugene, OR: Wipf & Stock Publishers, 2004), que dá o tom do que vou transmitir:

[O] pobre não existe como um facto inescapável do destino. A existência dele ou dela não é politicamente neutra e não é eticamente inocente. Os pobres são um subproduto do sistema em que vivemos e pelo qual somos responsáveis. Eles são os marginalizados pelo nosso mundo social e cultural. Eles são os oprimidos, o proletariado explorado, roubados do fruto do seu trabalho e despojados da sua humanidade. Daí que a pobreza dos pobres não peça uma generosa acção de alívio, mas exija que construamos uma ordem social diferente.

Freedom as Relationship

11.12.2012

Freedom is not a quality of man, nor is it an ability, a capacity, a kind of being that somehow flares up in him. Anyone investigating man to discover freedom finds nothing of it. Why? Because freedom is not a quality which can be revealed—it is not a possession, a presence, an object, nor is it a form of existence—but a relationship and nothing else. In truth, freedom is a relationship between two persons. Being free means “being free for the other,” because the other has bound me to him. Only in relationship with the other am I free.

DIETRICH BONHOEFFER, Creation and Fall Temptation

A Verdadeira Alegria

10.12.2012

A partir de Bar 5,1-9, Filip 1,4-6/8-11, e Lc 3,1-6:

Ontem, na Festa da Imaculada Conceição, meditámos sobre a santidade e a liberdade de Maria. O desafio é termos ainda a capacidade de, num mundo onde o mal acontece e alastra, conceber que alguém pode ser imune a ele, traçando o seu próprio caminho de graça e limpidez de coração. Hoje, no segundo domingo do Advento, somos convidados a imaginar o fruto de Maria, a vinda de quem vem mostrar Deus, de quem nos vem mostrar o que podemos e devemos ser — Jesus. Como João Baptista, aguardamos. É uma espera activa e aberta à surpresa. Envolve uma preparação e, no entanto, o encontro com Jesus é um acontecimento que podemos desejar, mas é também uma experiência que não conseguimos antecipar. Assim é a verdadeira alegria.

Poemas de Advento (2)

10.12.2012

Advento.
Tempo de esperas e recomeços.
Entre as velas do caminho
e as músicas em tons menores
despertamos da noite
ou saímos de um nevoeiro
para entrarmos no mistério que se revela
a quem traz aquecido o coração.

Advento.
Tempo de levantar as cabeças
vigiar e orar
como nos pede o Mestre.
E não olhar para o umbigo
para o desassossego dos problemas,
de cabeça curvada,
a cismar no que nos traz dispersão.

Advento.
Tempo de ouvir o segredo de Deus
de se deixar queimar pelo seu fogo
iluminar pela sua luz
ou encher pela sua presença.
E entrar na gruta
onde Deus se fez um de nós
inocente, puro, todo dado,
para a nossa salvação.
Vem, senhor Jesus.

FILIPE RODRIGUES, OP, “Advento 2012”

Preces para o Advento

05.12.2012

Adaptadas por mim das Laudes de hoje:

Nosso Deus, venha a nós o vosso reino.

Prepara os corações para acolherem o que há-de vir.

Abate os montes do nosso orgulho e levanta os vales da nossa fragilidade.

Destrói os muros de ódio que dividem os povos e aplana os caminhos da concórdia entre os homens.

Venite Adoremus

05.12.2012

Quem Foi, Quem É Jesus Cristo?

03.12.2012

Poemas de Advento (1)

01.12.2012

O advento chega com o cair da folha
e clama:
levantai a cabeça, vigiai!

O advento chega com o abatimento,
a decepção
a desistência
e reclama:
erguei-vos do chão, a alegria é o bordão
que reverdece o vosso andar.

O advento chega como o sono
que reclama
a vitória sobre o medo da noite
a entreaberta janela
por que surde o dia.

O advento chega pela noite dentro
a erguer do chão
os dias obscuros que até
os ulmeiros escurecem.

O advento chega
para reacender a fogueira morta
dos nossos desejos.

Com o Messias chega
para a terraplanagem chama
e os recomeços.

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO, OP, “Advir - Um Poema de Advento”