Bento Domingues, OP, “Um País Não é um Convento”

29.04.2013

Com a ideia fixa de que não havia alternativa, Portugal contraiu uma doença degenerativa, a “espiral da recessão”. O próprio presidente da Comissão Europeia perdeu a confiança nos “conselheiros tecnocratas” que, “nos dizem qual o melhor modelo, mas que quando perguntamos como o implementar, dizem que isso já não é com eles. Isto não pode acontecer a nível europeu”.

A política de austeridade não atingiu apenas os seus limites. Lançou no desemprego milhões de pessoas. Não se devia poder brincar com o destino colectivo dos povos. A reforma da política de um país ou da UE não é a reforma espiritual de um convento.

Tomar a Palavra

27.04.2013

“O caldo vai-se entornar...”, disse ontem o fr. José Nunes na celebração eucarística da família dominicana em Guimarães, durante um passeio que reuniu frades, irmãs, leigas e leigos como eu. Falava do futuro. Disse-o depois de uma mulher, a ir. Graça Maria, ter dito uma bela e fervorosa homilia, em vez de um dos padres presentes. Foi uma poderosa evocação da força de Catarina de Sena, uma das mulheres mais marcantes na história da Igreja. Uma mulher que não se manteve calada, que teve a coragem de falar para ser ouvida no séc. XIV, e que nos deixou um legado vivo de palavras ardentes que ainda hoje incendeiam. Adiante.

Guardadores e Guardados

22.04.2013

Ainda a pensar na homilia inter-religiosa do pe. Paulo, que relacionou a iconografia cristã do bom pastor com as imagens de Orfeu e as representações visuais de Krishna, a partir de Act 13,14/43-52, Ap 7,9/14b-17, e Jo 10,27-30:

Neste quarto domingo de Páscoa, podemos perguntar o que nos dizem as imagens do pastor e da ovelha. Estamos longe da cultura de pastorícia que lhes deu origem — um meio de subsistência tornado pensamento da existência. Não queremos ser ovelhas. Desconfiamos que os pastores são arrogantes. Mas ouçamos Alberto Caeiro: “Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estações / A seguir e a olhar.” A universalidade da primeira leitura leva-nos a considerar todos os seres humanos como guardadores e guardados, conhecendo e cuidando, sendo conhecidos e sendo cuidados. O princípio do amor está inscrito no nosso coração. Por isso, Jesus diz que a sua voz é escutada. Não é uma voz estranha que vem de cima. É uma voz íntima que vem do horizonte. A vida espiritual é uma procura de fazer coincidir o que somos e o que podemos ser, o que queremos fazer e o que devemos fazer, vencendo a nossa resistência em sermos completamente humanos.

Bento Domingues, OP, “Dois Ouvidos e uma Boca”

22.04.2013

Sob o ponto de vista bíblico, não era uma traição. Frei Francolino Gonçalves, professor da Escola Bíblica de Jerusalém e membro da Comissão Pontifícia Bíblica, nos seus estudos sobre o Antigo Testamento (AT), chegou à conclusão que, no seu conjunto, é o resultado da fusão de duas religiões de Iavé muito diferentes. Começaram até por ser concorrentes e acabaram por se fundir, dando lugar a uma síntese. De facto, a religião que estamos mais habituados a ler no AT funda-se na história das relações entre Iavé e Israel, mas essa é a mais recente. A mais antiga funda-se na obra criadora de Iavé e, por isso, tem o universo como horizonte e nada tem de nacionalista. É radicalmente universalista, dirige-se a todo e qualquer ser humano que a descobre e manifesta na observação do cosmos, da natureza e da cultura. Pode ser um bom caminho para um diálogo inter-religioso.

Anselmo Borges, “Óscar Lopes e o Transcendente”

22.04.2013

Para Óscar Lopes, que deixou de ser cristão por causa da afirmação do inferno, a virtude da fé bem como a da esperança são “inseparáveis do simples facto de se ser vivo e consciente”. Citou o amigo Mário Sacramento: “Sim, é com Fé que todos somos homens, quando o somos.”

Para ler aqui.

O Operário em Construção

18.04.2013

Bento Domingues, OP, “O Ser Humano Não Tem Cura”

15.04.2013

A Bíblia tem duas narrativas da criação. São narrativas poéticas que não pretendem explicar o mundo, mas sugerir, de forma muito bela, o seu sentido. A ciência, pelo contrário, fala de processos naturais. Apresenta a evolução como fruto de adaptações e mutações, não sendo fruto do azar, mas da selecção natural.

Só quem não consegue distinguir poesia e ciência pode ver contradições onde, de facto, não existem.

Bento Domingues, OP, “A Ressurreição Continua”

08.04.2013

Goste-se ou não, as celebrações da Páscoa obrigam os cristãos a confrontarem-se com um fenómeno insólito, que sempre procuraram disfarçar. As narrativas da Ressurreição foram todas escritas por homens, atribuídas a Mateus, Marcos, Lucas e João. Era de supor que o maior destaque fosse dado aos apóstolos, mas não é. São as mulheres que recebem o encargo de os evangelizar, de lhes anunciar o que há de mais importante no Evangelho, a ressurreição.

Este é o facto. Não basta dizer que Cristo assim quis e pronto. Seria o elogio da arbitrariedade. Ele devia ter as suas razões para agir deste modo. Quais poderiam ser?

Foi Jesus que escolheu e chamou os seus discípulos. Acabou por descobrir que eles não O entendiam, nem estavam interessados no seu projecto. No Evangelho de S. Marcos, a grande discussão que os animava, no âmbito da tomada do poder, centrava-se na distribuição de lugares. (Mc 4,34). Dois deles encheram-se de coragem e colocaram ao Mestre as suas exigências: quando triunfares, como rei messiânico, nós queremos os dois primeiros lugares. Esta pressa produziu uma grande indignação nos outros. Depois de uma reunião, receberam todos a mesma resposta: aquele que quiser ser o primeiro, de entre vós, seja o servo de todos (Mc 10,35-45).

Alimentaram sempre a esperança de que Jesus acabaria por perceber que esse rumo só o podia levar ao desastre. Pedro tentou, até à última, mostrar-lhe que tinha mesmo de mudar. Os apóstolos, quando viram o Mestre derrotado na cruz, aperceberam-se de que tinham andado enganados. Acabara-se o tempo das ilusões e cada um voltou à sua vida. Já tinham perdido muito tempo.