Os Poetas São do Mundo

31.01.2014

Aos poetas também compete
Sendo do espírito, ser também do mundo

FRIEDRICH HÖLDERLIN, “O Único”

Uma Voz Contém Muitas Vozes

27.01.2014

A partir de Is 8,23b–9,3, 1Cor 1,10-13/17, e Mt 4,12-23:

Ainda estamos em Janeiro, mas falemos de Maio, o mês maduro. Diz Ruy Belo no poema “E Tudo Era Possível”: “Chegava o mês de Maio, em tudo florido / o rolo das manhãs punha-se a circular / e era só ouvir o sonhador falar / da vida como se ela houvesse acontecido”. Este homem que sonha inspirado pelo que brota e que fala da vida possível como um facto está próximo daqueles de que ouviremos falar hoje: os que “se alegram no tempo da colheita” (9,2), os que colhem o que semearam na Galileia, a terra de Zabulão e de Neftali. É neste mesmo território que, segundo Mateus, Jesus primeiro proclama o futuro, sarando o que corroía o povo e o desunia. No texto de Isaías lemos que o que está para vir libertará o povo, quebrando “o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz” (9,3). A união que Paulo indica aos Coríntios, numa mensagem extensível a outros povos, está na imagem daquele que oferece o corpo por essa libertação, crucificado pelo que diz e pelo que faz. Ao realizar o que Isaías prometeu, Jesus, no encalço de João Baptista, lembra-nos que uma voz contém muitas vozes, as vozes que a precederam ontem e as vozes que anuncia para amanhã. A nova da proximidade do reino que ele traz é anunciada pela sua presença e acção, mas se esta presença não se desvaneceu pelos séculos dos séculos e um mundo de justiça e paz permanece à mão de semear é porque as nossas mãos continuam atarefadas a construir um futuro mais pleno.

Em Nome

19.01.2014

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

ARY DOS SANTOS, “Kyrie”

Madrugada

18.01.2014

Dai-vos as mãos, vós que viveis
de ouvirdes sons futuros
que nem a morte nem o medo
vos fechem entre muros
também às grades se resiste
e à vida macerada
[...]
é no Espírito de amor
que o luto se faz esperança
e é no fazer do mundo a vir
que a liberdade avança.

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO, OP

Passagens de A Rosa é Sem Porquê de Angelus Silesius

17.01.2014

Eu não sei o que sou, eu não sou o que sei:
Uma coisa e não uma coisa, um ponto nulo e um círculo.

— “Não se sabe o que se é”


Onde é a minha morada? Onde eu e tu não estamos.
Onde é o fim último para o qual devo tender?
Onde nenhum se encontra. Onde devo ir então?
Tenho de ir para além de Deus ainda, para um deserto.

— “Tem de passar-se além de Deus”


Homem, erguendo o teu espírito acima do espaço e do tempo,
Podes estar em cada instante na eternidade.

— “É preciso ir além de si mesmo”


Não deves clamar a Deus, em ti próprio está a fonte
Se não tapares a saída, sem fim ela brotará.

— “A fonte está em nós”


Quem não se entrega a ti, ó nobre liberdade
Não sabe o que ama um homem que ama a liberdade.

— “A liberdade”

Estrela Potencial

07.01.2014

A partir de Is 60,1-6, Ef 3,2-3a/5-6, e Mt 2,1-12:

Escutamos hoje uma descrição de Jerusalém como cidade resplandecente, ponto de gravitação, farol intenso. Esta cidade desejada e esperada para onde caminham os povos, as suas filhas e os seus filhos, brota da vida. O texto de Isaías dirige-se a ela precisamente como se fosse um ser humano, radiante, de coração palpitante e dilatado, porque nela irão encontrar-se e colaborar diferentes gentes. Jerusalém é um lugar que brilha porque é um futuro em construção. Um brilho semelhante guia os magos que vêm do oriente, segundo a narrativa de Mateus. Não vêm visitar um menino, mas participar no que acabara de nascer e na promessa confiante que esse nascimento traz, a que Paulo se refere. É assim que um evento familiar e íntimo se projecta num firmamento colectivo. A tradição oriental viu no astro que os encaminha uma mensagem que podemos interpretar como a própria caminhada, imagem de uma força capaz que descobrimos em nós na dinâmica da existência e que necessita de ser realizada. Por isso, essa estrela alta tem sido companheira da história da humanidade como símbolo da sua elevação.