Vivências Cristãs, Caminhos Cruzados

11.12.2014

On Idolising the Bible

25.11.2014

The Bible is not God, nor is it a substitute for God, and to treat it as if it were God or a surrogate of God is to treat it in the very way that it itself condemns over and over again.

PETER J. GOMES, The Good Book

Christian and Buddhist

15.10.2014

Much has been written about the compatibility of religions. Aside from syncretic examples, which amalgamate different religions erasing their differences, there are cases of people who belong to distinct religious and spiritual traditions like Christianity and Buddhism.

The prominent Trappist monk Thomas Merton is a Christian who developed a profound interest in Buddhism. Influenced by Aldous Huxley’s book on mysticism, Ends and Means,[1] Merton was drawn to apophatic mysticism, which sees negation (and the affirmation that comes with it) as the path to plenitude/God. He would later relate this thinking to the Buddhist teachings about the void and emptiness. Islamic Sufism had an impact on him, but Buddhism was more significant. In the end, he claimed to be both a Christian and a Buddhist and said: “I believe that by openness to Buddhism, to Hinduism, and to these great Asian traditions, we stand a wonderful chance of learning more about the potentiality of our own traditions”.[2]

There are other cases, such as Robert Kennedy, a Jesuit priest and a Zen master from the White Plum Asanga school, or the reputed theologian Paul F. Knitter, author of Without Buddha I Could Not Be a Christian.[3] In an interview published four years ago, Knitter explains that Buddhism has helped him “to rediscover, to deepen what it means when, in the New Testament — maybe it’s the only definition of God that we find in the New Testament — when it says that ‘God is love’.”[4]

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[1] See https://archive.org/details/endsandmeans035237mbp.
[2] Thomas Merton, The Asian Journal (London: Sheldon, 1974), p. 343.
[3] Paul F. Knitter, Without Buddha I Could Not Be a Christian (London: Oneworld Publications, 2009).
[4] Thomas C. Fox, “Double Belonging: Buddhism and Christian Faith”, National Catholic Reporter, 23 Jun. 2010, http://ncronline.org/news/double-belonging-buddhism-and-christian-faith.

Árvore

14.10.2014

Árvore plantada
à beira das correntes
Fruto na estação própria.
Folhagem que não murcha.

Feliz o homem
que tudo quanto faz em bem se torna.

MÁRIO CASTRIM, Do Livro dos Salmos

E Se o Essencial Estiver Noutro Lugar?

30.09.2014

Nos 50 Anos da Morte de Abel Varzim

01.08.2014

No dia 10 de Julho de 1948, foi proibido um jornal que já contava com 14 anos, O Trabalhador, acusado de publicar literatura marxista. O director da publicação era pároco no Bairro Alto em Lisboa e foi afastado para a paróquia rural de Cristelo, em Barcelos. Era o padre Abel Varzim, um dos fundadores da Liga Operária Católica, de onde vieram e vêm alguns dirigentes da CGTP-IN. Em 1939, Varzim tinha desmascarado na Assembleia Nacional os “sindicatos cooperativos” do fascismo por não cumprirem a missão sindical “de defesa dos interesses dos operários, mas também de formação social dos próprios operários”. Morreu em Agosto de 1964. Trilhou uma vida pouco linear, mas fundamentalmente empenhada na contenda contra a pobreza, a exclusão, e a exploração. Ouçamos as suas justas e inspiradoras palavras meio século depois da sua morte: “A classe operária tem de se levantar por si mesma. Mas levantar-se dignificando-se, instruíndo-se, valorizando-se, tornando-se capaz de se levantar a si própria, de conquistar, por direito, o lugar que lhe pertence na direcção da economia nacional.”

Frei Betto em Cuba

23.07.2014

Inicia-se hoje, e decorre até ao dia 26 de Julho, na Sociedade de Geografia de Lisboa, o congresso internacional Os Dominicanos no Mundo Luso Hispânico. O evento é co-organizado pela organização que o acolhe e pelos seguintes organismos: Instituto São Tomás de Aquino (ISTA), Centro de História de Além-Mar (CHAM) da Universidades Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores, Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos em Ciências das Religiões (CECR) da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora, e Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP). O programa encontra-se disponível para consulta aqui.

Apresento amanhã uma comunicação neste encontro científico, mais como leigo dominicano (e, por isso, estudioso) do que como perito (dedicado, presume-se). Trata-se de um trabalho que prolonga a investigação que tenho desenvolvido sobre a chamada teologia da libertação e os dominicanos associados a ela, como Gustavo Gutiérrez. Desta vez, centro-me em Frei Betto e na sua ligação a Cuba. Eis o resumo do que vou apresentar sob o título “Frei Betto em Cuba”:

Frei Betto é um religioso dominicano brasileiro, preso durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) com outros frades de um convento em São Paulo, mais tarde sujeitos a interrogatórios e torturas. Tinham colaborado com um dos principais resistentes ao regime, Carlos Marighella, dissidente do Partido Comunista Brasileiro por não concordar com a rejeição da luta armada nesse contexto e, mais tarde, fundador do grupo de guerrilha Acção Libertadora Nacional (ALN). Em 1981, Frei Betto visitou pela primeira vez a ilha de Cuba. Havia de regressar doze vezes até encetar 23 horas de diálogo com Fidel Castro em 1985. São estas trocas de palavras que compõem o miolo de Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto (Lisboa: Caminho, 1986). Frei Betto abandonou um projecto de um livro sobre as comunidades cristãs em países socialistas. Em vez disso, acabou por publicar estes diálogos juntando-lhes uma curta introdução. O que encontrou ele em Cuba que, de alguma forma, satisfez o seu interesse pessoal em pensar a relação entre o cristianismo e o socialismo?

Esta relação é estabelecida logo desde a primeira página, onde estão inscritas as três dedicatórias do volume. A primeira é a Leonardo Boff “sacredote, doutor e, sobretudo, profeta”. A segunda é a fr. Mateus Rocha que lhe “ensinou a dimensão libertadora da fé cristã e, como Provincial dos dominicanos brasileiros, estimulou esta missão”. A terceira, que reforça o enquadramento desta obra na teologia da libertação, agora sem referir nomes, é “a todos os cristãos latino-americanos que, entre incompreensões e na bem-aventurança da sede de justiça, preparam, a exemplo de João Batista, os caminhos do Senhor no socialismo”. Para encontrarmos uma resposta à questão formulada é necessário ler com atenção o livro. Particularmente relevantes são as passagens que procedem a uma análise das ligações entre a espiritualidade cristã e o pensamento marxista, mas também da importância da religiosidade na cultura popular cubana. Na sua variedade dinâmica, estes trechos vão definindo diferentes planos e níveis de discussão. Para além disso, é produtivo complementar esta leitura com textos que Frei Betto tem escrito, e entrevistas que tem dado, onde desenvolve um olhar conhecedor sobre a história e a realidade de Cuba, nesse processo olhando-se a si mesmo como cristão.

Luz ou Treva

22.07.2014

Em luzes e trevas derrama o sangue de minha existência
Quem me dirá como é o existir
Experiência do visível ou do invisível

FREI TITO, OP

A Coragem e a Meta

30.06.2014

A partir de Act 3,1-10, Gal 1,11-20, e Jo 21,15-19:

Lemos num dos ditos dos padres do deserto: “Perguntaram a um ancião ‘Porque me acontece, constantemente, perder a coragem?’ E ele respondeu: ‘Porque ainda não descortinaste a meta.’” Das mortes de Pedro e Paulo se teceu a comunidade cristã, mas apenas na medida em que as suas vidas foram dadas por muitas e muitos, seguindo o gesto de Cristo. O Evangelho segundo João narra Jesus a dizer: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (15,13). Um amigo não ter de estar necessariamente por perto, mas está na mesma esfera, no mesmo projecto. Tiago é executado à espada. Pedro é encarcerado. A narrativa não fala do destino dele, que Orígenes no séc. III descreve como tendo sido o da crucificação de cabeça para baixo em Roma. Fala da sua libertação da ansiedade causada por um destino que lhe é imposto. Na carta a Timóteo, escrita por Paulo pouco antes da sua morte, quando estava preso em Roma, o apóstolo escreveu: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.” Roma tornou-se um lugar central para os cristãos, não por causa do Vaticano que só surgiu muitos séculos depois, mas precisamente porque relembra a perseguição, o sofrimento, e a condenação à morte dos primeiros cristãos pelo Império Romano na sua capital. Inúmeras vidas foram ceifadas ao longo dos séculos, de pessoas religiosas e sem religião, agindo vezes sem conta em estreita colaboração na procura da justiça e da paz que Jesus anuncia. Se continuamos a honrar a memória de Pedro e Paulo é porque somos continuadores do seu legado na senda de uma nova humanidade (Ef 4,23-24).

O Pensamento e Ação do Padre Abel Varzim no Mundo Laboral

24.06.2014

Ascender

02.06.2014

A partir de Act 1,1-11, Ef 1,17-23, e Mt 28,16-20 — e a matutar numa passagem de O Desespero Humano de Søren Kierkegaard (“se é uma vantagem, por exemplo, poder-se ser o que se deseja, maior ainda é sê-lo, ou seja, a passagem do possível ao real é um progresso, uma ascensão”):

A Festa da Ascensão, não é a Festa do Ascendido. Daí que surja esta pergunta cortante: “Homens da Galileia, por que estais assim a olhar para o céu?” Quem se fixa no céu perde de vista o movimento ascensional, não de superioridade, mas de plenitude do que se faz e do que se é. A elevação é um desejo humano e do humano. É uma aspiração feita esperança de uma humanidade que se vai fazendo e desenvolvendo ao se erguer, ao rejeitar o que a abate e enfraquece. Nesse sentido, Cristo está destinado a ascender tal como nós estamos, erguendo-nos vindos da terra viva (humus). Diz Jesus aos apóstolos que do futuro nada saberão, que no fundo esse futuro está por fazer, mas promete uma força que desce sobre eles à medida que ele se eleva. Forças moventes e dialógicas, a verdade é que não nos levantamos sem uma firmeza que nos estabilize no calcamento do solo. Em cada domingo é celebrada a ressurreição, mas também a ascenção, porque somos em simultâneo convidados a renascer e a deixar a condição de caídos, subjugados, e vencidos. A poetisa brasileira Adélia Prado fala-nos desta relação entre as esperanças de ressuscitar e de ascender no poema “Leitura”: “Eu sempre sonho que uma coisa gera, / nunca nada está morto. / O que não parece vivo, aduba. / O que parece estático, espera.”

Na Dor que Ressuscita

18.04.2014

desafiai o deserto
a fuga mundi
a desistência

arrancai ao caos
o canto livre

deixai a prisão
que pisa aos pés a vida
em nome da pós-vida

entrai no abismo do silêncio
que ilumina

esclarecei a distância
entre o poder e as verdades

pensai o acontecimento
a excepção, a mudança

entrai no Aberto
que a Palavra tece

querei o não-querer
que faz o pobre

largai a técnica
da autoflagelação
e do cálculo

o claro está no escuro
e na limitação passiva
do que nele fulgura
e leva ao Dia

meditai na vida
não na morte

a Páscoa está na dor
que ressuscita

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO, OP, “vigiar”

O Lume nos Olhos

30.03.2014

A partir de 1Sam 16,1b.6-7.10-13a, Ef 5,8-14, e Jo 9,1-41:

Há vozes que podem parecer estranhas, afastadas da nossa existência presente. Esta fala-nos de um guardador, ocupado e dedicado, que é ungido. Fala-nos da relação entre o coração e a aparência, isto é, entre a nossa humanidade e o modo como ela se manifesta. Paulo, inspirado por Isaías, vem repetir um apelo vital: “Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos.” Há vozes portuguesas que se encadeiam com esta, como a da letra de José Gomes Ferreira para o “Acordai”: “Acordai homens que dormis a embalar a dor / a embalar a dor dos silêncios vis / vinde no clamor das almas viris / arrancar a flor que dorme na raiz”. Os acordados fazem gestos iluminados pela consciência e iluminadores das consciências. A primeira coisa a fazer nesse caminho talvez seja rejeitar a ideia de castigo divino, tal como escutamos no Evangelho. Em vez do ser humano castigado, o que irrompe é um juízo sobre a vida e o que a nega: por isso, se diz, que os que não vêem ficarão a ver e os que vêem ficarão cegos. O que é pecar, então? Não ver? Não. É fechar os olhos, num gesto de alheamento. “Como foi que se abriram os teus olhos?”, pergunta-se. E eis que se percebe que o ungido não é quem foi ungido, mas quem unge a vista, ajudando a descoberta do lume nos olhos.

Fala Livre

23.03.2014

Disse um ancião: “Quando falares, fala como um homem livre, não como um escravo”.

Ditos dos Padres do Deserto

As Crescentes Sombras da Noite

11.03.2014

O nosso ser, como uma gaiola cheia de pássaros, está cheio de lamentos de cativeiro. E nenhum de nós sabe quanto tempo durará. A época da colheita passou, o Verão chegou ao fim, e não encontrámos libertação.

FORUGH FARROKHZAD

Levantados

05.03.2014

Quarta-feira de cinzas. Um dia para incendiar a vergonha. Somos pó, mas pó levantado, como diz António Vieira. Levantados, levantamos outra gente, para de pé bradarmos que a era dos senhores e dos escravos acabou.

Olhar os Lírios, Florescer no Mundo

03.03.2014

A partir de Is 49,14-15, 1Cor 4,1-5, e Mt 6,24-34:

Falar da providência, e do amor, é falar da união e permuta entre humanidade e divindade. Providência tem a mesma raiz de providenciar e ambas as palavras podem ser ligadas à universalidade da utilização de recursos e ao atendimento de necessidades. Tal conceito espiritual não pode, portanto, ser desligado da nossa acção, na medida em que ela pode bloquear essa utilização e esse atendimento. Jesus diz para olharmos como crescem os lírios do campo (Mt 6,28b), mostrando antes disso o que nos impede de o fazer: os interesses e as prioridades que nos alheiam do mundo onde florescemos. É precisamente esse modo de vida social que João Crisóstomo denunciou há dez séculos atrás, num comentário ao Salmo 49. As palavras dele continuam pertinentes e penetrantes: “Tu, que revestes a tua cama de prata e de ouro o teu cavalo, se te pedirem contas e explicações de tanta riqueza, que razão alegarás? Quando tu já estiveres morto, as pessoas que passarem diante do teu palácio, vendo o tamanho e o luxo, dirão ao seu vizinho: ‘Ao preço de quantas lágrimas foi edificado este palácio? De quantos órfãos deixados nus? De quantas viúvas injustiçadas? De quantos operários espoliados do seu salário?’”

A Nossa Lei

17.02.2014

A partir de Sir 15,16-21, 1Cor 2,6-10, e Mt 5,17-37:

Em nós, humanos, que é o mesmo que dizer diante de nós quando pesamos os nossos passos, está o fogo e a água, a morte e a vida. Estendemos a mão ao que desejamos. As escolhas fazem-nos arder, fluir, morrer, viver, uma e outra vez. A que é que somos leais? Em que é que somos constantes? Talvez à nascente que não nos pertence, a partir da qual o eu e o nós, o nós e o eu, se entrelaçam e se definem. É-nos dito que há uma sabedoria que ainda não surgiu, pois que neste mundo ferido quem domina crucifica quem expõe contradições e anuncia um novo tempo, o do triunfo da igualdade e da justiça. Há uma lei legalista que nos limita os movimentos, imposta de cima, estranha aos nossos dilemas, que nos torna marionetas sem lugar nem tempo, sem vida enfim. Há uma outra lei, a boa notícia, que traduz uma procura libertadora, inscrita em pensamentos e sentimentos, na condição inacabada do ser humano, que nos torna responsáveis pela história em circunstâncias específicas mas mutáveis, em que tudo o que herdamos do passado pode ser semente de outro futuro.

Os Poetas São do Mundo

31.01.2014

Aos poetas também compete
Sendo do espírito, ser também do mundo

FRIEDRICH HÖLDERLIN, “O Único”

Uma Voz Contém Muitas Vozes

27.01.2014

A partir de Is 8,23b–9,3, 1Cor 1,10-13/17, e Mt 4,12-23:

Ainda estamos em Janeiro, mas falemos de Maio, o mês maduro. Diz Ruy Belo no poema “E Tudo Era Possível”: “Chegava o mês de Maio, em tudo florido / o rolo das manhãs punha-se a circular / e era só ouvir o sonhador falar / da vida como se ela houvesse acontecido”. Este homem que sonha inspirado pelo que brota e que fala da vida possível como um facto está próximo daqueles de que ouviremos falar hoje: os que “se alegram no tempo da colheita” (9,2), os que colhem o que semearam na Galileia, a terra de Zabulão e de Neftali. É neste mesmo território que, segundo Mateus, Jesus primeiro proclama o futuro, sarando o que corroía o povo e o desunia. No texto de Isaías lemos que o que está para vir libertará o povo, quebrando “o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz” (9,3). A união que Paulo indica aos Coríntios, numa mensagem extensível a outros povos, está na imagem daquele que oferece o corpo por essa libertação, crucificado pelo que diz e pelo que faz. Ao realizar o que Isaías prometeu, Jesus, no encalço de João Baptista, lembra-nos que uma voz contém muitas vozes, as vozes que a precederam ontem e as vozes que anuncia para amanhã. A nova da proximidade do reino que ele traz é anunciada pela sua presença e acção, mas se esta presença não se desvaneceu pelos séculos dos séculos e um mundo de justiça e paz permanece à mão de semear é porque as nossas mãos continuam atarefadas a construir um futuro mais pleno.

Em Nome

19.01.2014

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

ARY DOS SANTOS, “Kyrie”

Madrugada

18.01.2014

Dai-vos as mãos, vós que viveis
de ouvirdes sons futuros
que nem a morte nem o medo
vos fechem entre muros
também às grades se resiste
e à vida macerada
[...]
é no Espírito de amor
que o luto se faz esperança
e é no fazer do mundo a vir
que a liberdade avança.

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO, OP

Passagens de A Rosa é Sem Porquê de Angelus Silesius

17.01.2014

Eu não sei o que sou, eu não sou o que sei:
Uma coisa e não uma coisa, um ponto nulo e um círculo.

— “Não se sabe o que se é”


Onde é a minha morada? Onde eu e tu não estamos.
Onde é o fim último para o qual devo tender?
Onde nenhum se encontra. Onde devo ir então?
Tenho de ir para além de Deus ainda, para um deserto.

— “Tem de passar-se além de Deus”


Homem, erguendo o teu espírito acima do espaço e do tempo,
Podes estar em cada instante na eternidade.

— “É preciso ir além de si mesmo”


Não deves clamar a Deus, em ti próprio está a fonte
Se não tapares a saída, sem fim ela brotará.

— “A fonte está em nós”


Quem não se entrega a ti, ó nobre liberdade
Não sabe o que ama um homem que ama a liberdade.

— “A liberdade”

Estrela Potencial

07.01.2014

A partir de Is 60,1-6, Ef 3,2-3a/5-6, e Mt 2,1-12:

Escutamos hoje uma descrição de Jerusalém como cidade resplandecente, ponto de gravitação, farol intenso. Esta cidade desejada e esperada para onde caminham os povos, as suas filhas e os seus filhos, brota da vida. O texto de Isaías dirige-se a ela precisamente como se fosse um ser humano, radiante, de coração palpitante e dilatado, porque nela irão encontrar-se e colaborar diferentes gentes. Jerusalém é um lugar que brilha porque é um futuro em construção. Um brilho semelhante guia os magos que vêm do oriente, segundo a narrativa de Mateus. Não vêm visitar um menino, mas participar no que acabara de nascer e na promessa confiante que esse nascimento traz, a que Paulo se refere. É assim que um evento familiar e íntimo se projecta num firmamento colectivo. A tradição oriental viu no astro que os encaminha uma mensagem que podemos interpretar como a própria caminhada, imagem de uma força capaz que descobrimos em nós na dinâmica da existência e que necessita de ser realizada. Por isso, essa estrela alta tem sido companheira da história da humanidade como símbolo da sua elevação.